segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A tarde começou quase sem que percebêssemos. Seu nome foi virando uma poeira e desaparecendo de todos os lugares. A chuva veio mais tarde e levou aquele pó que eu já não reconhecia como você.
Eu sentei de frente para a janela. O chá foi esfriando na xícara. As folhas brilhantes balançavam num ritmo inconstante. Os sentimentos foram se alterando mansamente. Olho no espelho e não sei o que vejo.
Quem é esta mulher que me olha? A fisgada foi rápida, perdurou alguns instantes, passou e voltou. Mas cada vez é mais rápida, e demora mais para se repetir. Essa fisgada foi descendo, primeiro no peito, depois no estomago. Sei que logo terá escoado completamente.
Logo sua presença não passa de mais uma mancha da qual não lembro a origem.
Sinto-me grata por ter conseguido partir, mesmo com você apenas dificultando tudo.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Em silêncio, quando não há quem olhe, aquele sorriso vai brotando no peito. Se alarga, se espalha, vai subindo, subindo. Aquele sorriso de notas macias, que diz verdades doces. Aqueles dias em que o sol esquenta de dentro para fora. Um daqueles dias em que derretemos geleiras, e a semana toda se amorna. Caminhos um pouco tortos, pedras muito coloridas, e seu acinzentado vai ganhando formas. Deitamos sobre a grama macia, e suas mãos vão percorrendo o chão úmido. Num movimento frouxo deslisa até o rio, e se deixa levar pela correnteza. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O seu rostinho surge aos pouquinhos do outro lado da janela. As pontinhas dos seus dedos já branquinhas de tanta força, seus pezinhos nas pontinhas, não os vejo, mas deduzo. Você uma pessoinha toda lindinha, cabelos ao vento, carinha de sono. Sonho com os seus olhos grandes, mas agora que os vejo percebo que são ainda mais lindos no seu rosto. Menina pequenina, de vestido floral, se estica na janela para ver o que há aqui dentro, eu na cadeira de balanço não preciso inclinar para saber o que há lá fora, uma barriguinha que ronca com fome de bolo com cobertura de chocolate.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

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As palavras ficaram em suspensão tentando assentar aqui e ali, mas o papel tinha farpas que repeliam suas finas escamas. Até que essa manhã enquanto olhava o menino careca com suas roupas sociais, agarrado aos joelhos, sentado no canto do porta-retrato fazendo esforço para caber ali dentro e ao mesmo tempo cobrindo os olhos inchados com as pernas, pude sentir as cordas sendo arremessadas e começarem a laçar as palavras. Não digo que não seja doloroso o primeiro contato, as farpas perfurando as escamas quase que num golpe só. E elas foram se fixando aqui e ali, até formarem um conjunto indissolúvel, até estarem suficientemente conformadas e as farpas já não serem mais necessárias. Elas foram sentando ao redor do menino, formando o seu jardim e emprestando suas cores a ele. O menino desbotado foi ganhando vida e correu pelo caminho ensopado para fora das molduras do retrato. Ele chegou a milhares de encruzilhadas, mas jamais parou seu movimento, pois já conhecia o destino de estar emoldurado.

terça-feira, 24 de março de 2015

Sentada entre folhas rasgadas procuro aquele verso que você guardou para mim. Entre soluços escuto sua última gargalhada e sei que nunca foi mulher. Suas vestes são escuras em contraste com sua pele cinza. Seus olhos mortos tentam esconder seu passado e fingem confiança no que nunca será. Seguro as folhas úmidas entre minhas mão trêmulas enquanto escrevo um último recado com o pedaço de carvão. Sei que se pudesse compreender já não precisaria ler. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Os fios de cabelo escorrem pelos meus braços feito cachoeira, como se pudessem voar sem nunca encontrar uma barreira sólida. Como pequenas pedras acizentadas sem chorar as veias que se partem. Seguro tua peruca com cada gota da força que me resta, mas ainda assim escorrem os fios sem o menor pudor. Agarro esses ventos que neles sopram e engulo cada golfada como se fosse a última. Ajoelho-me a beira da escada para encarar cada degrau de frente, mas os caminhos se alteram invariavelmente. Corro em diversas direções sem que com isso me acompanhe o ar.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E então

"nada será como antes"